29 de julho de 2011

Da utilidade e da responsabilidade dos geradores de fantasias

    Bonecos nas prateleiras, desenhos pintados nas paredes do quarto, no canto, livros de histórias infantis cheios de fadas, fábulas etc. Tudo isso faz parte do mundo infantil, e neste mundo existe uma criança, criando o seu próprio mundo que cresce, ganha e começa a ganhar forma furtivamente. Nesse mundo, leis estão sendo regidas e convicções formuladas. Nesse processo, destaca-se, o encanto quase incondicional a esses elementos, gerando uma certa responsabilidade para quem produz esse universo.

Uma pesquisa publicada na revista Galileu, edição n° 170, de Setembro de 2005, realizada pela Universidade Católica de Pernambuco, mostrou que crianças que tiveram contato com contos de fadas e histórias infantis possuíam ganho na imaginação, na criatividade, e, ao ter contato com o mundo fantástico dos contos, aprenderam a relacionar diretamente o prazer à leitura de livros. O resultado mostra dados relevantes já que as causas são características imprescindíveis para a formação intelectual das crianças. Ainda no mesmo estudo, foi revelado que  essas crianças gostam menos de brincar, assistir filmes e jogar games violentos. O estudo foi realizado com crianças de escolas com diferentes linhas pedagógicas, entre aqueles que não tiveram contato com contos na escola, 70% eram adeptos de jogos eletrônicos violentos, enquanto esse numero era de 30% nas escolas que adotavam os contos de fadas. Além disso, a pesquisa mostrou  que as crianças que tiveram maior contato com os contos também criavam brincadeiras menos violentas.
Tentando compreender essas pequenas mentes , em 1940, Louise Duss, criou um método utilizando a fantasia das fábulas para identificar conflitos psicológicos do inconsciente dos pequeninos. O estudo feito , com base em um referencial teórico essencialmente freudiano, consistia em criar pequenas fabulas, cujo herói, animal ou criança, encontravam-se em uma situação que representava uma fase do desenvolvimento. O método foi objeto de inúmeros estudos visando sua validação, e muitas vantagens foram identificadas, como a alta projeção feita pela crianças, que possibilita ao psicólogo uma leitura melhor da personalidade dos pequeninos.
Eles levam realmente a sério, tendo em vista essa alta receptividade surge a preocupação pelo material que é apresentado a estas nos dias de hoje. O que está sendo mostrado a eles? Quais valores eles estão sendo transmitidos?  Um grupo de pesquisadores, analistas de divã e seguidores de Freud, apontam como um sutil causador de traumas, o medo, transmitido principalmente pelas imagens e pelas palavras. Medo este que está contido, em contos infantis mundialmente lidos.
São contos que fazem crianças ter medo de monstros do armário, que temem o monstro debaixo da cama,  como consequência não conseguem dormir com a luz apagada ou fogem para a cama dos pais no meio da noite, aliás, correm porque em nenhum desses conto está representado a figura protetora do pai, ou conforto de uma família estável e tradicional. Pelo contrário, encontra-se neles todo tipo de neuroses e preconceitos levados para a vida adulta. Pode-se citar como exemplos: a filha adotiva e escrava (Cinderela), a madrasta má (Branca de Neve), a mãe irresponsável (Chapeuzinho Vermelho), os filhos abandonados pelos pais (João e Maria), irmãos vivendo sozinhos (os três porquinhos).
Os filmes da Disney em geral também não existem pais, apenas tios, sobrinhos, avós, netos, primos, amigos, entretanto, nunca pais e filhos em uma família estruturada e tradicional, pois quando o pai existe, o filho não o respeita, como nas aventuras do Lobinho, entre outros. Podemos citar também o famoso Chaves sendo uma criança abandonada que vive em um barril. A Chiquinha e o Nhonho vivem só com os pais, o Quico só com a mãe, que por sua vez é apaixonada por um educador, sendo correspondida, porém a estruturação da família nunca se efetiva. E a Dona Clotilde, uma senhora gentil porem solitária, que sofre preconceito e é constantemente chamada de bruxa.
Pode ser exagero falar de conspiração notar crianças desprotegidas em todos os contos apresentado a elas, mas muitos escritores são acusados de transmitir distúrbios pessoais em seus contos, e dada a importância que os geradores de fantasia tem na formação da personalidade da criança, isso é algo para reflexão., Porém, o risco não está na fantasia em si, pelo contrario, a coisa do "tudo é possível", “massageia” a imaginação e da criatividade. Desta forma, na medida que a criança vai crescendo, naturalmente  vai pondo os  personagens fictícios nas prateleiras sem guardar rancor.  Creio que nenhuma criança se chateia gravemente ao descobrir que as historietas contadas pelos pais para elas dormirem eram “de mentirinha”. O risco está, sim, é no que fica, nas  lições que foram guardadas, devem-se tomar cuidado para que estas historias sejam saudáveis, não alhear ou alienar, não oprimir, manter sempre representado valores nobres sem omitir os demais, mas cuidando em relacioná-los da forma mais sensata, para que a fantasia seja saudável, tenha lógica e seja mais realista possível.

Autor: Valdez Araújo.
Agradecimentos a Antonio Sevilha do Blog " Cultura Dissonante.