Fadas no Divâ é um extraordinário livro que trata da psicanálise existente nos contos de fadas. Escrito por Diana Lichtenstein e Mário Corso o livro disseca os as historias apresentadas às nossas crianças, desde as mais classicas até as mais modernas, revelando seu conteúdo subjetivo de uma forma bastante ampla. Bem, abaixo segue um trecho do livro em que os escritores falam do conto O Patinho Feio.
" O Patinho Feio
A história do Patinho Feio é amplamente conhecida. Mas não impede que a recon-temos – em grandes pinceladas – tanto para alicerçar a análise que faremos quanto para retomar a história original, pois ela é muito difundida com passagens cortadas ou simplificadas.
No começo havia um ovo diferente no ninho de uma pata, ele era maior e de choco mais demorado que os outros. Por fim, deu origem a uma avezinha graúda, desengonçada e acinzentada, em nada parecida com seus graciosos irmãos. Seu aspecto distinto é determinante para ser discriminado por todos, inclusive pela mãe. Após se encher dos maus-tratos dispensados por ela, irmãos e vizinhos, ele voou para longe desse galinheiro infernal.
No lago onde foi parar, relacionou-se com dois jovens gansos, apesar da frase inicial dessa amizade: “você é tão feio, que vamos com a sua cara”. Mas durou pouco esse laço, pois seus amigos foram abatidos numa caçada. Escondido entre os juncos, salvou-se de uma carnificina que liquidou com tudo que voava. Paradoxalmente, ele se sentiu rejeitado até pelos cães de caça, que o farejaram mas, não o morderam. Sempre voando para longe do perigo, ele caiu na choupana de uma velha, que o acolheu pensando tratar-se de uma pata poedeira. Lá se sentia hostilizado pelos outros animais da casa e foi ficando com saudade da água, até que decidiu voltar ao lago.
Tudo correu bem até a chegada do inverno, quando ficou congelado e desmaiou. Teria morrido,
não fosse a bondade de um caçador que o desentranhou do gelo e o levou para sua casa. Lá, devido a tanto sofrimento que teve na vida, interpretou como agressões as brincadeiras dos filhos de seu salvador. Numa tentativa de escapar deles, provocou uma revoada desastrosa, derramando a manteiga, o leite e a farinha da casa. Quando a mulher do caçador gritou, por causa da confusão, ele fugiu mais uma vez, resignado a sobreviver sozinho no lago até a primavera. Essa estação trouxe de volta os cisnes, as belas aves que ele admirara e vira partir no outono. Então, ao curvar a cabeça de medo de que eles também o maltratassem, ele se viu no espelho das águas, descobrindo que havia transformado-se no mais belo dos cisnes.
Poucas histórias infantis foram capazes de uma empatia tão forte e duradoura com o público,
certamente devido ao mérito de traduzir muito bem a angústia da criança pequena. O calvário do cisnezinho, que foi cair no ninho errado, é igual ao de todos nós. Na verdade, a trama sintetiza duas fantasias assustadoras: uma dos pais, o medo de ter o filho trocado por outro – hoje, por um equívoco na maternidade, outrora por alguma artimanha de alguém ou do destino; e outra dos filhos, a de descobrirem-se adotivos. Na primeira, o filho está no ninho errado; na segunda,
ele vem do ovo errado. Ambas, entretanto, evocam uma certa verdade: somos todos adotivos, o laço biológico não nos oferece as garantias necessárias para sentir-se amado. Mesmo que sejamos nascidos da mesma mãe que nos amamentará e educará, ainda resta um vago e desagradável sentimento de ser o ovo errado no ninho errado.
Entre o feto que se avoluma na barriga e o bebê que sai e é apresentado aos pais não há uma identificação direta. Acreditamos que o bebê e a mãe se reconhecem, a música de fundo desse encontro amoroso é o batimento cardíaco materno que compartilharam toda a gestação, assim como há o reconhecimento das vozes mais constantes, que penetram na cavidade líquida do nenê. Porém, isso não terá sentido se não for reapresentado ao bebê.
Ele reconhecerá a voz da mãe do lado de fora como sendo aquele mesmo som abafado que se
imiscuía nas águas uterinas que o banhavam, desde que ela reintroduza essa voz na vida dele. A mãe precisará conquistá-lo, falando com ele, para que ele conecte o som de fora com o de dentro. Já, para ela, será difícil reconhecer naquele ser esquálido e sujinho o filho que tanto fantasiou; ele também terá de seduzir sua mãe, mamando em seus seios, demonstrando capacidade de responder aos seus estímulos.
O volume do ventre materno é preenchido pela fantasia do filho perfeito, já o bebê que sai, como dizíamos, é o patinho feio. A mãe precisa olhar, reconhecer e adotar esse recém-nascido como seu filho. O vínculo que existia na gestação entre o feto e a mãe precisa ser renegociado. Tem tudo para dar certo. Em geral, o pacto de olhares entre o recém-nascido e a mãe é tão rápido e eficiente que nem é visível, nem parece que foi necessário. Embora o amor à primeira vista entre eles dois possa ser fulminante, não é automático nem infalível, como provam as psicoses puerperais e as desconexões do bebê.
A mãe e o bebê têm vários momentos para se desencontrar: na gestação, no parto ou no puerpério. Em todos os casos trata-se do fracasso de um vínculo que gostaríamos de crer como natural. Entre os animais, os filhotes fracos e defeituosos são deixados morrer ou são devorados pela própria mãe. Por mais cruel que seja, isso nos parece mais compreensível, já que nesses casos a rejeição de um filhote obedece a alguma lógica biológica.
No caso da mãe humana, a lógica que rege o vínculo é infinitamente mais complicada. Na gestação ou no parto, por exemplo, ela pode rejeitar um filho perfeito que reconheça como seu, porque ocorre que ela não se admite no papel de mãe. No puerpério, ela poderá dedicar-se ao filho, atenciosa e prestativa, ocupando-se dele, mas o bebê percebe que ela está emocionalmente alienada, suprindo a falta de vínculo com uma eficiência mecânica. Por isso, um bebê limpinho, gordinho e belo, pode ser completamente desconectado por não ter encontrado seu ninho.
Na maior parte das vezes, ao escutar o primeiro choro do recém-saido de seu ventre, a mãe sente que este é o seu esperado bebê, olhar o corpinho ensangüentado só confirma o que seus ouvidos já lhe informaram, por isso, o encontro é feliz. Mas a suspeita que todos temos é de sermos incapazes de no igualarmos à fantasia que se avolumara no ventre de nossa mãe. Esse temor nos acompanhará para sempre justificando o sentimento de rejeição que nos identifica ao patinho, abandonado e órfão desde o ovo. O ventre da mãe é estufado de ideal, os filhos crescem e, mesmo que se tornem belos cisnes, ficam sempre com o sentimento de que lhes falta algo para preencher o que a mãe esperava. Essa defasagem é o tecido do conto do Patinho Feio.
A história também lembra que o ambiente que recebe mesmo o mais amado e esperado dos filhos
não deixa de ter suas hostilidades. Além das supracitadas eventualidades ou fantasias de rejeição, está o fato de os bebês interpretarem como hostilidades externas até mesmo aquelas que se produzem dentro do seu próprio corpo. Fome, gases, cansaço e cólicas podem parecer um verdadeiro complô do mundo contra si. Por isso, não é difícil imaginar que todo o bebê por vezes habita um mundo hostil, gelado e solitário como o do patinho. Na clássica história de Andersen, a pequena ave interpreta como maldade até mesmo ações benéficas ou sem intenção de machucar que lhe são dirigidas. O patinho está paranóico depois de tudo o que sofreu. Um bebê também fica inconsolável em certas ocasiões, afinal, ele está morrendo de cólicas e ninguém fez nada para impedir...
Há também algo de verdade histórica neste conto: as crianças pré-modernas estavam mais sós. Se o personagem do Patinho não era digno do amor de sua mãe, isso não constituía uma realidade tão distante para seu autor. Num passado mais recente para Andersen do que para os dias de hoje, era freqüente a história de crianças que não eram adotadas no amor de seus pais. A família tradicional era um lugar árido e, se um filho não tivesse predicados logo ao nascer, provavelmente não sobreviveria. Crianças defeituosas, com incapacidades, não teriam maiores regalias e, caso sobrevivessem, ainda teriam de levar o estigma de falhadas, já que os pais seriam bem francos em não esconder o quanto lhes desagradava um filho aleijado, por exemplo. Cremos que o feio pode ser usado para toda a gama do que não se encaixa numa normalidade, algo que está fora do padrão – pelo que contam os biógrafos, o próprio Andersen, excêntrico e delicado, era diferente do padrão."